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Literatura brasileira · Mercado editorial · Hábitos de leitura · Comportamento · · atualizado em · 6 min de leitura

Os vencedores do Jabuti 2026: o que a premiação está dizendo sobre a literatura brasileira agora

Ruy Castro leva o Livro do Ano pela 2ª vez seguida

Na noite de 27 de outubro, o 68º Prêmio Jabuti anunciou seus vencedores em cerimônia na Sala São Paulo. Como acontece todos os anos, as listas circulam rápido, os títulos mais conhecidos viram manchete e, em poucos dias, a conversa começa a esfriar. Eu prefiro esperar um pouco. Olhar a lista com calma costuma revelar mais do que a euforia imediata permite enxergar.

O grande destaque da noite foi, novamente, Ruy Castro. Seu livro Trincheira tropical: a Segunda Guerra Mundial no Rio, publicado pela Companhia das Letras, levou o Livro do Ano. Também venceu na categoria Biografia e Reportagem. É a segunda vez consecutiva que Castro conquista a principal distinção do prêmio — algo inédito na história do Jabuti. No ano passado, o título havia sido de O Ouvidor do Brasil: 99 vezes Tom Jobim. Agora, o autor volta com uma obra de fôlego sobre o Rio de Janeiro entre 1935 e 1945, período em que a cidade viveu intensamente os reflexos da guerra europeia: espionagem, diplomacia, refugiados, disputas políticas e a transformação do cotidiano carioca.

Não é um livro de ficção. É reportagem histórica densa, resultado de anos de pesquisa. Castro tem o dom de transformar arquivo em narrativa viva, e Trincheira tropical parece confirmar uma tendência: o Jabuti tem valorizado, com consistência, o trabalho de investigação e escrita que exige tempo. Em um mercado cada vez mais acelerado, isso não é detalhe. É posicionamento.

No Romance Literário, o troféu foi para Meridiana, de Eliana Alves Cruz, também pela Companhia das Letras. A obra acompanha uma família negra em processo de ascensão social, que deixa a periferia e se muda para um condomínio. O livro trata de pertencimento, de limbo de classe, de racismo que muda de forma, mas não desaparece, e das tensões que surgem quando se tenta ocupar um lugar que historicamente não foi pensado para certas pessoas. Eliana Alves Cruz se tornou a primeira mulher negra a vencer a categoria de Romance Literário desde que ela foi instituída. Em uma disputa que reunia nomes como Milton Hatoum, Itamar Vieira Junior, Aline Bei e Evandro Affonso Ferreira, a vitória carrega peso simbólico e literário.

Outros resultados merecem atenção. Na Poesia, Boris e Marina, de Alberto Martins, constrói um diálogo a partir de correspondências reais entre Boris Pasternak, Marina Tsvetáieva e Rainer Maria Rilke. É poesia que conversa com a história da própria poesia. No Conto, Massaranduba, de Abáz (Senac Rio), trouxe um nome menos óbvio para o centro da conversa. Na Crônica, Humberto Werneck venceu com Viagem no país da crônica, uma reflexão sobre o gênero em si — algo que o Brasil sempre fez bem e raramente para para pensar com a devida profundidade. Entre os estreantes, Pitangas verdes, de Mariana Lobato Botter, levou o Romance, e História a que ninguém deu nome, de Juliana Cajives, conquistou a Poesia.

Houve ainda a estreia da categoria Incentivo à Leitura – Cultura Digital, vencida por Pedro Pacífico, o Bookster. O troféu foi entregue pelo jogador Gustavo Scarpa, que nos últimos tempos virou referência inusitada de indicação literária nas redes. A escolha da CBL de abrir espaço oficial para quem fomenta leitura no ambiente digital é um sinal claro de que o prêmio está tentando acompanhar a forma como os livros circulam hoje. Não é só nas livrarias e nas páginas dos jornais. É também nos stories, nos reels e nas comunidades virtuais.

A homenagem a Lygia Bojunga como Personalidade Literária, pelos 50 anos de A Bolsa Amarela, fecha o ciclo com uma nota de continuidade. Há algo de justo em reconhecer quem construiu caminhos para que outras escritoras pudessem existir com mais liberdade.

O que essa edição parece estar dizendo

Premiações não definem o que é bom. Definem o que um conjunto de jurados, em determinado momento histórico, considera representativo. E isso já é informação valiosa.

Olhando a lista de 2026, alguns movimentos ficam evidentes. O primeiro é a valorização do trabalho de longa duração. Ruy Castro não escreveu Trincheira tropical em seis meses. O livro carrega anos de pesquisa. Em um cenário em que a velocidade muitas vezes é confundida com relevância, o Jabuti está, ao menos nesta edição, premiando o fôlego.

O segundo movimento é a centralidade das narrativas que lidam com raça, classe e pertencimento de forma estrutural, e não apenas temática. Meridiana não é um livro “sobre racismo”. É um livro que observa como o racismo e a mobilidade social se entrelaçam na intimidade de uma família. Essa diferença importa. Quando a literatura consegue tratar dessas questões sem didatismo e com densidade narrativa, o resultado costuma ser mais duradouro.

O terceiro ponto é a abertura controlada para novos formatos e novos mediadores. A categoria de Cultura Digital não é apenas uma concessão ao marketing. É o reconhecimento de que a mediação da leitura mudou. Influenciadores, booktokers e criadores de conteúdo passaram a ocupar um espaço que antes pertencia quase exclusivamente à crítica tradicional e às livrarias. O Jabuti, ao premiar essa atuação, admite que o ecossistema literário é maior do que o circuito formal.

Há também o que a lista não diz. Poucos livros de editoras pequenas ou independentes aparecem entre os grandes vencedores. A Companhia das Letras teve presença forte. Isso não invalida os premiados, mas lembra que o prestígio editorial continua pesando. O prêmio reflete, em alguma medida, as estruturas de poder do próprio mercado.

Uma leitura pessoal

Como leitora, saio dessa edição com duas vontades claras. A primeira é ler Meridiana. Não apenas pelo marco histórico, mas porque o tema do deslocamento de classe e do não-pertencimento me interessa profundamente. Vivemos um momento em que muitas pessoas ocupam espaços novos — profissionais, sociais, afetivos — e ainda carregam a sensação de estar em trânsito permanente. A literatura que consegue nomear essa experiência tem utilidade real.

A segunda vontade é voltar a Ruy Castro com mais atenção. Sempre admirei sua capacidade de transformar pesquisa em prosa elegante, mas Trincheira tropical parece pedir uma leitura mais demorada. Há algo de urgente em revisitar o Rio dos anos 1930 e 1940 neste momento. A cidade como personagem, a política como tecido do cotidiano, a guerra como presença indireta e constante.

Também fico curiosa com os estreantes. Pitangas verdes e História a que ninguém deu nome chegam com a vantagem e a desvantagem de serem primeiras obras premiadas. A vantagem é a visibilidade. A desvantagem é a expectativa. Vale a pena acompanhar o que essas autoras vão escrever depois.

O que fazer com a lista

Listas de premiados servem pouco se forem apenas colecionadas. Servem mais quando viram ponto de partida. Minha sugestão prática é simples: escolha um ou dois títulos dessa edição e leia de verdade. Não para cumprir uma obrigação cultural, mas para testar se a conversa que o livro provoca faz sentido para você.

No Encontrei por Aí, a proposta continua sendo a mesma. Encontrar livros, pessoas e lugares que valem o tempo investido. O Jabuti é uma fotografia do que determinado grupo considerou relevante em 2026. A leitura particular é o que transforma essa fotografia em experiência.

Se você já leu algum dos premiados, ou se tem vontade de começar por algum, deixa nos comentários. Gosto de saber o que outras pessoas estão lendo de verdade não só o que está na lista do momento.

A literatura brasileira segue viva, desigual, em disputa e, em alguns momentos, surpreendentemente generosa. Essa edição do Jabuti parece ter capturado um pouco de cada uma dessas características.

Texto de Cristiane Guerra
Encontrei por Aí